Sobre vianaan

Engenheiro Mecânico pela Universidade Federal da Paraíba; Engenheiro Eletricista pela Universidade de Pernambuco. Gerente do Serviço de Manutenção de Itaparica - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco - CHESF

Êxito açucareiro garante colonização

A decisão de colonizar a nossa terra estava intimamente associada à escolha do cultivo de um gênero agrário que trouxesse elevados lucros à Coroa. A ausência de metais preciosos, os baixos recursos obtidos com a extração do pau-brasil e o declínio do comércio de especiarias no Oriente exigiram uma opção agrícola lucrativa. O açúcar foi a escolha portuguesa para o projeto colonizador.

A produção açucareira oferecia várias vantagens:

a) as boas experiências produtivas dos portugueses com o açúcar cultivado nas ilhas de Açores e Madeira;

b) o pequeno tempo gasto entre a produção e a comercialização do produto, em relação aos outros gêneros, permitia que o capital empregado, embora elevado, tivesse retorno rápido;

c) o mercado europeu era garantido porque não haveria concorrentes;

d) a grande quantidade de terras disponíveis no brasil, com solo tipo massapê favorável a essa cultura.

A organização da produção açucareira obedeceu ao esquema de plantation: produção agrícola baseada em latifúndio (grande propriedade), monocultura (somente produção de açúcar), com mão-de-obra escrava, voltada exclusivamente para o mercado externo.

Pensamento do dia:

Sonho com o dia em que os políticos sejam um exemplo para sociedade. E que uma criança tenha a segurança de dizer “Quero ser igual a você quando crescer”.

 

Pedro Felipe B. Silva.


Açúcar: o ouro do Brasil

Brasil: ocupação ou perda?

Depois que os espanhóis encontraram ouro e prata em suas possessões nas Américas, a França resolveu também enviar navios ao Brasil e aqui disputar com Portugal a procura de metais preciosos.

As expedições francesas ao litoral brasileiro provocavam protestos dos portugueses, que reclamavam o acordo estabelecido no Tratado de Tordesilhas. O rei da França – Francisco I – respondeu ao rei português que a França deixaria o litoral do Brasil se Portugal apresentasse o “Testamento de Adão”, em que constasse a doação das terras do Novo Mundo aos espanhóis e portugueses…

Diante de tais ameaças, Portugal decidiu-se, a partir de 1530, a ocupar economicamente o Brasil, colonizando-o. Além das ameaças européias ao Brasil, o comércio das especiarias no Oriente estava enfraquecendo. A concorrência de outras nações da Europa, os altos custos militares e de transporte, a enorme distância entre a Índia e Portugal e principalmente a diminuição dos lucros mercantis foram os fatores decisivos para os lusitanos optarem pela exploração comercial da colônia brasileira.

Por ordem de dom João III, a expedição de Martim Afonso de Sousa ao Brasil, em 1530, visava expulsar os franceses do litoral, observar e relatar cuidadosamente as características geográficas da nova terra e fundar povoamentos. São Vicente (no atual litoral paulista) foi a primeira vila brasileira, fundada em 1532. Após o relatório de Martim Afonso, que mostrava a viabilidade da colonização, e tendo em vista a falta de capital da Coroa, o rei decidiu entregar as despesas da colonização à iniciativa privada.

A divisão da terra em capitanias hereditárias foi o esquema encontrado pela Coroa portuguesa para a ocupação colonial. Eram quinze faixas lineares de terras, entregues a doze proprietários, incumbidos de montar engenhos de açúcar, de pagar ao rei um quinto dos metais preciosos encontrados, e, em troca, o donatário (proprietário da capitania) poderia vender pau-brasil e índios em Portugal. A posse da terra era garantida pela Carta de Doação e pelo Foral.

Os donatários eram capitães com poder de fazer leis, administrar a produção e a renda das capitanias. Esses poderes eram bastante amplos; no entanto, o sistema de capitanias não foi feudal, a mão-de-obra era escrava e a produção visava o mercado externo. A economia da colônia funcionava de acordo com o comércio internacional.

O sistema de capitanias hereditárias foi adotado no Brasil devido ao êxito obtido com um esquema semelhante na produção de gêneros agrários nas ilhas de Açores, Madeira, Cabo Verde, Porto Príncipe e em Angola (todos territórios portugueses no Atlântico). No Brasil, as capitanias tiveram pouco resultado. A falta de recursos financeiros foi a principal causa do fracasso; de resto, a maioria dos donatários nem veio ao Brasil para assumir a colonização.

O fracasso das capitanias determinou a necessidade de substituir a política descentralizada por um centro de unidade política e administrativa. Assim, em 1548, foi criado o Governo Geral. Tomé de Sousa foi o primeiro governador, com a função primordial de ajudar os capitães donatários na produção agrícola. Ao governador geral cabia também combater tribos indígenas rebeldes aos colonizadores, realizar buscas de jazidas de ouro e prata pelo interior e construir navios para a defesa territorial.

Os governadores gerais pouco puderam fazer para estimular a produção e defender as terras brasileiras, dada a enorme extensão territorial e os parcos recursos financeiros que a Coroa enviava.

O poder de fato estava nas mãos dos proprietários de terras – os chamados senhores coloniais -, donos das fazendas de açúcar, movidos a trabalho escravo.

Essa classe social detinha, na prática, o poder local através dos municípios, organizados em câmaras. Nestas, reuniam-se os “homens bons“, isto é, homens de propriedades, para as decisões políticas, administrativas e econômicas do município. Nelas ainda se decidia sobre a declaração de guerra e paz com índios, arrecadação de impostos, catequese, abastecimento de mão-de-obra escrava (negros e índios) para as fazendas.

Pensamento do dia:

Mais vale um eleitor na indecisão do que dois políticos na contramão

Luque Ronald

Açúcar: o ouro do Brasil

Oriente lucrativo

Portugal era um exemplo desse modelo mercantilista. A partir da viagem lucrativa de Vasco da Gama, em 1498, os navegadores portugueses estabeleceram acordos com mercadores da Índia para obter a exclusividade no comércio das especiarias.

Através de guerras colonialistas os portugueses conseguiram garantir o comércio dos produtos orientais. Ouro da África e do Oriente, escravos africanos para a produção açucareira das ilhas do Atlântico, artigos de luxo (perfumes, sedas, tapetes) do Oriente, socorro à escassez de cereais do reino português e da Europa eram alguns objetivos lusitanos no início do século XVI.

Nos primeiros trinta anos após a descoberta do Brasil, Portugal desinteressou-se pela Terra de Santa Cruz e quase a abandonou, pois as especiarias e as manufaturas de luxo do Oriente eram mais lucrativas.

Homens e dinheiro eram decisivos para o domínio militar e o combate aos árabes no controle comercial do Oriente. Isso fazia com que pouco sobrasse para investir na nova terra.

Além disso, os portugueses não haviam encontrado no Brasil nem ouro nem prata, ou outro produto que pudesse ser comercializado no mercado europeu. Mesmo assim, houve várias expedições de reconhecimento do litoral brasileiro. Numa delas, os navegadores descobriram grande quantidade de pau-brasil na Mata Atlântica.

Essa madeira já era conhecida pelos europeus, que a utilizavam como corante na indústria têxtil. Ate então, o produto vinha do Oriente. O rei de Portugal firmou um contrato com mercadores para a exploração do pau-brasil nas novas terras.

O Estado Português comprometeu-se com os mercadores a não importar mais pau-brasil do Oriente. Em troca, eles deveriam enviar navios ao Brasil, construir e manter aqui uma fortaleza e pagar impostos à Coroa. Assim nasceram os “brasileiros” – nome dado aos comerciantes de pau-brasil.

Pensamento do dia:

“Marketing. Aquela coisa que os empresários inventaram e os políticos descobriram”.

Eugênio Mohallem

Colônias de exploração e de povoamento

Nas colônias de povoamento a economia era organizada para atender aos interesses dos colonos, que abandonaram seus países de origem por motivos de perseguição política ou religiosa, ou por condições subumanas de sobrevivência.

Não se deve pensar, no entanto, que se tratava de colônias em que prevaleciam os interesses dos colonizados. Através das colônias de povoamento, o que se visava era a ocupação territorial, ao mesmo tempo que se tentava resolver os problemas sociais, políticos e econômicos das populações pobres da Europa, permitindo-lhes novas alternativas de sobrevivência.

Quanto às colônias de exploração, foram organizadas com a finalidade de suprir a falta de matérias-primas da metrópole. Aqui, a economia obedecia ao que se costumou denominar de Pacto Colonial, que subordinava integralmente à metrópole toda transação comercial (exportação e importação) das colônias. Ou seja, os colonizadores extraíam toda matéria-prima possível das colônias e as obrigavam a importar seus produtos manufaturados.

As colônias de exploração fundamentavam sua economia na extração de metais ou na produção de qualquer gênero agrário, de alto valor mercantil, para ser vendido nos mercados europeus. Produção em latifúndio, especialização em um único produto agrícola (monocultura), emprego de mão-de-obra escrava eram as características desse modelo colonial.

Entender o modelo de colônias de exploração é fundamental, pois ele caracteriza todo um conjunto de colônias, exploradas pelos europeus em várias regiões (África, Ásia e América), que permitiriam o crescimento da acumulação de capitais gerados pelas atividades mercantis monopolistas.

O monopólio da compra dos produtos coloniais permitia à burguesia mercantil adquirí-los a preços baixos. Os lucros eram enormes, pois essas mercadorias eram vendidas a preços vantajosos no continente europeu.

As práticas mercantilistas deram origem à economia pré-capitalista, que se desenvolveu principalmente nos séculos XVI, XVII até fins dos séculos XVIII. A acumulação de capitais comerciais pelas práticas dos mercantilistas foi responsável pela transição do processo produtivo de manufaturas para o desenvolvimento industrial, característico da economia capitalista.

Pensamento do dia:

“Não acredito em discos voadores, não acredito em fantasmas, não acredito na maioria dos políticos, mas acredito piamente que o mal que se faz aqui, se recebe aqui. É por isso que sou um militante do bem”.

Leo Cruz

Colonização: Serve a quem?

Ouro e comércio na riqueza da Europa

No século XVI, a Europa passava por grandes transformações. A atividade mercantil crescia, forçando os reis a organizarem os Estados Nacionais, através de princípios econômicos que aumentassem suas arrecadações financeiras. Esses princípios eram:

  1. a maior quantidade possível de ouro e prata constituiria a base da riqueza de um país;
  2. o aumento da exportação de mercadorias permitiria acúmulo dos metais preciosos, ou seja, levaria a uma balança comercial favorável;
  3. o protecionismo aos produtos nacionais deveria impedir a entrada de mercadorias iguais ou semelhantes àquelas que o país possuísse;
  4. a transformação das matérias-primas em manufaturas estimularia o industrialismo;
  5. o estabelecimento de colônias para a produção de matérias-primas baratas e a exploração de ouro e prata ajudariam a suprir as necessidades das metrópoles;
  6. o Pacto Colonial (as colônias só podiam comerciar com sua metrópole) e a criação de Companhias de Comércio garantiam o monopólio comercial do sistema colonial. A prática desses princípios ficou conhecida com política mercantilista ou mercantilismo.

A burguesia comercial era economicamente responsável pelas transações mercantis, cujos lucros fortaleceram o poder dos Estados Nacionais. O lema do mercantilismo poderia ser: ouro, poder e glória, ou seja, riqueza, domínio e prestígio.

O sistema de governo baseado economicamente no mercantilismo era o Estado Absolutista – o rei, apoiado pela burguesia comercial, centralizava o poder.

O comércio monopolista (exclusivista) promovido pelo rei e burguesia exigia que estes controlassem suas mercadorias não só em suas nações como também em outras. Essa prática gerou guerras na disputa de territórios comerciais entre os países europeus.

A conquista de colônias tornava-se essencial para o equilíbrio econômico-financeiro das nações européias, pois as colônias poderiam produzir as matérias-primas inexistentes nas metrópoles. Além disso, os territórios colonizados consumiriam as manufaturas produzidas nas metrópoles.

Pensamento do dia

“Acabo de descobrir o que todo mundo já sabia: há dois tipos de políticos no Brasil: O político de antes e o de depois das eleições. Votei num elegi o outro!”

M.M.Soriano

Na poesia a verdade do “Mar Português”

Ó Mar Salgado, quanto do teu sal                                                                     São lágrimas de Portugal!                                                                                   Por te cruzarmos, quantas mães choraram,                                                     Quantos filhos em vão rezaram!                                                                         Quantas noivas ficaram por casar                                                                     Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena                                                                       Se a alma não é pequena.                                                                                 Quem quer passar além do Bojador                                                                 Tem que passar além da dor.                                                                           Deus ao mar o perigo e o abismo deu,                                                             Mas nele é que espelhou o céu.

Os versos do poeta português Fernando Pessoa revelam a força do Atlântico para a vida dos portugueses. O lema da Escola de Sagres e dos navegantes de mares tão desconhecidos e arriscados era: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Navegar era preciso para o enriquecimento do rei e da burguesia mercantil. Viver não era preciso. Preciso era trazer ouro, prata, diamantes, canela, cravo, açúcar para o poder de Portugal, ainda que isso custasse a vida de muitos navegantes.

Pensamento do dia

Os milionários quiseram comprar a felicidade com seu dinheiro, os políticos quiseram conquistá-la com seu poder, as celebridades quiseram seduzi-la com sua fama. Mas ela não se deixou achar. Balbuciando aos ouvidos de todos, disse: “Eu me escondo nas coisas mais simples e anônimas…”

Augusto Cury

A escola de Sagres: “Navegar é preciso, viver não é preciso”

Como Portugal conseguiu conquistar uma posição tão privilegiada? O que permitiu o desenvolvimento das grandes navegações? Que condições culturais e mentais impulsionaram os portugueses para mares tão desconhecidos?

A partir do século XII, a realização das Cruzadas abriu a possibilidade de os europeus entrarem em contato com povos diferentes. As viagens pelo Mediterrâneo, as lutas entre católicos. muçulmanos e bizantinos acarretaram grandes transformações na vida européia, como o aperfeiçoamento das técnicas de guerra, a mudança de hábitos alimentares, novas palavras no vocabulário e, principalmente, o aperfeiçoamento de técnicas marítimas.

Ao longo dos séculos XIV, XV e XVI, os europeus perceberam que a ajuda divina e da Igreja não eram suficientes para suas vidas. Era necessário um esforço pessoal nos empreendimentos comerciais, na produção agrícola, no domínio da natureza, no conhecimento de técnicas marítimas. Os homens começavam a acreditar em si mesmos. Perceberam que de sua fraqueza diante da natureza nascia a força para dominá-la. O TEOCENTRISMO medieval dava lugar ao ANTROPOCENTRISMO renascentista: o homem era agora a medida de todas as coisas, isto é, pelas próprias forças ele poderia conquistar o mundo.

No século XV, a criação da Escola Naval de Sagres, pelo infante dom Henrique, foi um marco decisivo para as navegações portuguesas no Atlântico. A Escola de Sagres reuniu os maiores estudiosos do mundo europeu em técnicas de navegação e lançou ao mar pelo menos um navio por ano para estudar o oceano, fazer mapas e anotar as posições das estrelas para guiar os navegadores.

As viagens pelo Atlântico eram muito inseguras: todos os tripulantes dos navios, ao saírem de Portugal, assinavam o livro de óbitos. Mesmo assim, os portugueses colocavam em risco suas vidas, menos pela aventura do mar ou pela religião, e mais pelas possibilidades de riquezas comerciais.

A primeira expedição comercial às Índias, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, em 1500 – encerrando espetacularmente o século XV -, foi o marco definitivo das conquistas portuguesas. Reuniu-se a maior e mais bem organizada frota para chegar às Índias. A magnitude do empreendimento ressalta da comparação: enquanto Vasco da Gama levara apenas quatro naus em sua viagem pioneira – e Cristóvão Colombo chegara à América com apenas três -, Cabral saiu no dia 8 de março com treze embarcações e mil e quinhentos homens. E trazia apenas uma recomendação do rei português, dom Manuel: afastar-se o máximo possível das águas conhecidas para descobrir um caminho mais rápido para as Índias.

Desse afastamento resultou a vista de inequívocos sinais de terra, a 21 de abril. No dia seguinte pela manhã avistaram um monte; como era a semana de Páscoa, chamaram-no de Monte Pascoal. O porto era seguro. No dia 23 seguiram os primeiros contornos e descobriram: não estavam nas Índias, porque os tradutores que conheciam a língua do Oriente não entenderam o que os habitantes da terra falavam. Estava descoberta a Ilha de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz e, finalmente, Brasil. Decidiram continuar viagem em 01 de maio para as Índias. Uma nau voltou a Portugal anunciando a nova terra descoberta.

Pensamento do dia

“…O QUE OS PARTIDOS POLÍTICOS DIZEM UNS DOS OUTROS É, JUSTAMENTE , O QUE EU PENSO DE TODOS ELES…”

Autoria: [Fournier]

Autori Fournier

Rumo ao mar: expansão ultramarina

Como foi dito, o feudalismo em Portugal teve características próprias em relação ao restante da Europa. Em primeiro lugar, o rei centralizava as decisões econômicas estimulando as feiras para trocas comerciais e guardando, em seus armazéns, alimentos para as regiões carentes. Com isso, o rei arrecadava altos impostos, garantindo dinheiro para estimular as atividades mercantis e impulsionar a tecnologia marítima.

Em segundo lugar, a atividade pesqueira lançava os portugueses em direção ao oceano. Inicialmente, apenas com a pesca da sardinha e a extração do sal, depois com a construção de embarcações maiores, para a pesca de atum e bacalhau, até chegar, no século XV, ao desenvolvimento das caravelas, que possibilitaram a caça da baleia e a conquista de novas terras.

Essas peculiaridades feudais associadas à localização geográfica do país, “à beira-mar plantado”, estimularam, a partir do século XIV (1301-1400), o desenvolvimento das ciências náuticas. A construção de caravelas, o aperfeiçoamento do astrolábio (instrumento de medição da altura das estrelas no horizonte para orientar a navegação e a elaboração de mapas) e da bússola propiciaram a Portugal a abertura do comércio com a Inglaterra, França e Países Baixos (Holanda).

No século XV (1401-1500), a Europa apresentava o seguinte quadro: crescimento populacional, deslocamento de servos do campo para a cidade, desenvolvimento urbano, escassez de produtos agrícolas e ampliação comercial. Essa ampliação exigia a expansão em busca de novos mercados produtores e consumidores.

O mar Mediterrâneo estava dominado econômica e comercialmente pelas cidades italianas, em especial Veneza. No século XV, uma Europa necessitada de mercadorias impulsionou Portugal a enfrentar os desafios do oceano para muito além das costas portuguesas, em direção ao sul do Atlântico. Essas viagens ficaram historicamente conhecidas como as Grandes Navegações. Foi o momento da expansão ultramarina. A queda de Constantinopla nas mãos dos turcos, em 1453, e o consequente fechamento da rota terrestre por onde passavam os produtos vindos do Oriente, estimularam ainda mais a busca de um caminho marítimo para as Índias.

Os passos foram lentos. A cada nova conquista ou avanço sobre o oceano, somavam-se novas experiências e conhecimentos:

  • 1415 – conquista do Ceuta, na África, importante base dos mercadores muçulmanos; primeiro porto do Atlântico fora da Europa.
  • 1416 e 1431 – conquista de Madeira e Açores: dois arquipélagos do Atlântico entre Europa e África.
  • 1434 – avanço sobre o cabo Bojador: passagem decisiva para a conquista definitiva da África.
  • 1440 a 1480 – conquista de várias ilhas, entre elas as de Cabo Verde e Porto Príncipe, e regiões do continente africano (Guiné e Angola).
  • 1487 – o navegador Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança no sul da África: passagem do Atlântico para o oceano Índico.
  • 1498 – Vasco da Gama chega às Índias.
  • 1500 – descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral.

Com a conquista das regiões africanas e asiáticas e a instalação de postos comerciais para as atividades mercantis. Portugal tornava-se a nação mais rica e de comércio mais organizado e lucrativo de toda a Europa do século XV.

As Índias representavam conquista significativa aos cofres do rei português, pois de lá vinham especiarias, pedras preciosas, marfins, perfumes, açúcar, ouro, prata, tecidos, madeira e porcelana, para suprir as necessidades econômicas européias.

A rota das Índias pelo Atlântico era muito mais lucrativa do que pelo Mediterrâneo, que incluía um longo trecho por terra. A primeira viagem de Vasco da Gama foi exemplar para a economia portuguesa: obteve-se um lucro de 6 000%. Veneza jogava no mercado europeu 420 mil libras de pimenta por ano. Vasco da Gama, com um navio apenas, jogou 200 mil libras no mesmo mercado. As viagens pelo Atlântico eram mais longas, mas os lucros compensavam à medida que as transações comerciais cresciam.

Na última década do século XV, Portugal e Espanha eram as duas maiores potências econômicas da Europa. A importância desses reinos pode ser medida pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 com a aprovação do Papa, em que ambos dividiram entre si o mundo conhecido ou o que viesse a ser descoberto: as terras encontradas a leste seriam de Portugal, as terras a oeste, da Espanha.

Pensamento do dia

“O mundo não precisa de bons políticos para ficar melhor, mas apenas seres humanos”

Rafael Charrete

Morte de rei provocou revolução

Em 1383, com a morte de dom Fernando – último rei da família Borgonha -, teve início a crise monárquica em Portugal, que terminaria com a subida ao trono português de outra família lusitana através de uma revolução.

Dom Fernando não teve herdeiro varão. Do primeiro casamento  com dona Leonor Teles nascera dona Beatriz, que se casou com dom João, rei de Leão e Castela. O monarca castelhano ambicionava anexar Portugal aos seus domínios, mas dom Fernando, antes de falecer, obrigou-o a assinar um contrato de casamento pelo qual ficava estabelecido que o primeiro filho do casal seria rei de Portugal, abrindo mão do trono de Castela. Com isso, a burguesia mercantil portuguesa sentiu-se ameaçada em seus interesses, enquanto o povo lusitano – semi-servos, vilões do campo e da cidade, marinheiros, pescadores – não aceitava as manobras da regente. O assassinato de um nobre galego ligado a dona Leonor deflagrou o conflito. A regente fugiu para Castela, onde pediu ajuda.

Em praça pública, o povo aclamou dom João, da família Avis (região lusitana), como chefe militar para organizar a luta contra Castela. A guerra entre Portugal e Castela teve seu desfecho em 1385, com a batalha de Aljubarrota, na qual os portugueses derrotaram os invasores. Um pouco antes, no mesmo ano, dom João fora aclamado rei de Portugal, dando início à dinastia de Avis e ao primeiro Estado Nacional moderno da Europa.

Uma ampla associação de interesses foi a principal causa da consolidação de Portugal como país. A burguesia mercantil ficou temerosa de perder as conquistas comerciais para a burguesia castelhana. O nobre de Avis percebeu que poderia se tornar rei e construir o mais poderoso Estado da Europa no século XIV. Vilões e semi-servos estavam interessados em consolidar as condições de trabalho. A união da burguesia mercantil com o rei e sua vitória contra a aristocracia (senhores de terras) foi o traço marcante da Revolução de Avis.

A burguesia mercantil e parte da nobreza que apoiou dom João criaram as cortes, isto é, uma assembléia formada pelas duas classes vitoriosas para dar apoio político ao rei. Outro objetivo das cortes foi impedir o crescimento de organizações populares de vilões, semi-servos, marinheiros e pescadores que pudessem reivindicar maior participação política e melhores condições econômicas e sociais.

Pensamento do dia 

“São poucos os políticos que sabem fazer política. Mas, quando um intelectual tenta entrar nesse meio, então é o fim do mundo”.

Jorge Borges

Sociedade portuguesa: clero, nobres e povo

Ao longo dos séculos, o território português tinha sido ocupado por gregos, cartagineses (vindos da atual Tunísia, Norte da África), romanos, povos germânicos e árabes. No século XII, os descendentes desses povos estavam socialmente divididos em “grandes“, ou “imunes“, e “miúdos“, ou “vilões“, e “semi-servos“. Os grandes – clero e nobreza – eram imunes porque os rendimentos de seus bens estavam isentos de quaisquer pagamentos aos reis.

Os homens do clero (padres, bispos, arcebispos) eram os únicos da população cristã que tinham cultura literária. Eram também os mais bem organizados da sociedade portuguesa. Como a Igreja representava Deus, que estava acima de reis, nobres e camponeses, o clero tentava sobrepor-se ao poder real. Os reis fizeram então uma política de conciliação com a Igreja, reconhecendo suas propriedades, aceitando a cobrança do dízimo e concedendo-lhe o direito de cunhar moedas.

Os vilões compreendiam vários grupos sociais. O vilão do campo trabalhava em qualquer lugar e pelo preço que combinava. O vilão rico do campo tinha cavalos, armas e roupas adequadas para a guerra, enquanto o pobre fazia o serviço militar a pé. O vilão da cidade era o mercador. Ao longo dos séculos XII e XIII, e, principalmente, a partir dos séculos XIV e XV, esses mercadores constituíram as classes burguesas.

Os servos eram homens ligados à terra. Embora não fossem escravos – não podiam ser vendidos -, os servos faziam parte das terras conquistadas ou doadas pelo rei a algum nobre. Tinham a subsistência garantida pelo senhor, mas nada recebiam por seus serviços. No caso de Portugal, os servos, a partir do século XII, foram se transformando em colonos livres, ou semi-servos, pois passaram a receber dinheiro (moedas) pelo trabalho produzido.

Essa evolução foi consequência indireta dos constantes ataques árabes, que obrigavam as populações portuguesas a organizarem a economia de maneira centralizada. Essa centralização precoce em relação aos outros reinos europeus colocou o rei como organizador da economia em Portugal.

Desde o século XII (1101-1200), a carência de mão-de-obra tornou-se o maior problema para a produção de alimentos. A solução encontrada pelo rei foi transformar o servo em semi-servo ou colono livre, pagando-lhe um salário de acordo com sua produtividade e assim evitando que ele se deslocasse para as regiões litorâneas, onde poderia se dedicar com vantagem à pesca. Nesse sentido, o feudalismo português foi diferente do das outras regiões da Europa, onde um servo não se confundia com um colono livre.

Nas terras de propriedades dos reis trabalhavam os rendeiros, isto é, homens que cultivavam a terra em troca de gêneros alimentícios e, principalmente, de dinheiro.

Os reis estimulavam ainda as feiras, isto é, a troca de mercadorias. Chegavam mesmo a obrigar os produtores agrários a comparecerem às feiras, sob pena de pesadas multas, perseguições e confiscos dos gêneros agrícolas.

Além disso, os armazéns reais, sempre com abundância de mercadorias, regulavam os estoques para o consumo. Dessa forma, evitavam-se os problemas de desequilíbrio entre regiões mais e menos produtivas. A produção de arroz, azeite, vinho, trigo e algodão (matéria-prima para tecidos) estava integrada ao esquema de controle de produção/comercialização comandado pelos reis.

Pensamento do dia 

“O problema não está nos políticos do país; está na ignorância do povo”.

Kléber Novartes