Entradas: nenhum ouro nas explorações

Havia outra forma de penetração do interior brasileiro que “rompia” a linha de Tordesilhas, ou seja, desrespeitava o tratado de 1494, pelo qual as terras da América se dividiam entre os espanhóis e os portugueses.

Eram as entradas: expedições oficiais que, do século XVI ao XVIII, o governo português organizou. Com pequeno número de participantes, as entradas partiam da costa atlântica e penetravam na mata, com a finalidade de reconhecer o território e localizar pedras e metais preciosos.

As entradas serviram para ajudar o reconhecimento do sertão, especialmente na Amazônia; no entanto, todas elas fracassaram no seu principal objetivo: não encontraram ouro.

Foram expedições de bandeirantes, no final do século XVII, que localizaram as jazidas de ouro e prata na região das Minas Gerais. O bandeirante Antônio Rodrigues Arzão é mencionado no relatório do governador do Rio de Janeiro ao governo real lusitano (1695) como sendo o descobridor das minas auríferas na região de Ouro Preto e Mariana.

O objetivo primeiro dos portugueses e depois dos luso-brasileiros foi o de encontrar metais preciosos na colônia. Esse grande sonho só será realizado pelos bandeirantes que partem de São Paulo pelo Tietê, seguem pelo Paraná, cruzam a serra da Mantiqueira e atingem o rio das Velhas. Antônio Rodrigues Arzão (1693), Bartolomeu Bueno Siqueira (1694), Borba Gato (1700) são os bandeirantes que abrem para a Metrópole as minas de Caeté, Sabará, Vila Rica e Ribeirão do Carmo, após as tentativas de tantos outros que varreram o sertão sem atingir o sonho dourado.

A busca de novas alternativas

Desde a segunda metade do século XVI, iniciou-se o ciclo do ouro de lavagem. Descobriu-se ouro na própria capitania de São Vicente e depois em Iguape. Os bandeirantes seguiram pelo litoral, encontrando ouro no Paraná e Santa Catarina. Nessa busca ao metal, as bandeiras colonizaram a região paranaense, fundando as vilas de Paranaguá, Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e Laguna, na região catarinense, no século XVII.

A exploração aurífera exigia uma regulamentação, e o governo lusitano decretou o Código Mineiro, no início do século XVIII. Por esse código ficou estabelecido que a quinta parte do ouro extraído era da Coroa portuguesa e, ainda, exigiu que o metal fosse fundido em barras em casas especiais, autorizadas pelo governo em Lisboa, para evitar o contrabando.

Elemento essencial à penetração dos bandeirantes pelo interior da colônia, o índio servia como guia na mata, em busca de pedras e metais preciosos. Além disso, senhores de engenho contratavam os bandeirantes para trazer-lhes braços indígenas usados no trabalho agrícola. A busca dos nativos era feita principalmente nas missões jesuíticas, isto é, em regiões controladas pelos padres que realizavam a catequese – ensino da doutrina cristã -, pois lá os índios já estavam “docilmente domésticos” para a exploração escravocrata.

No segundo ciclo dos bandeirantes, de 1617 a 1641 (século XVII), o monopólio do comércio de escravos para o Brasil era feito pela Holanda, que se apossara de territórios coloniais portugueses na África e vendia os negros a altos preços. A essa questão financeira, associaram-se as invasões holandesas no Brasil, de 1624 e 1630, e desorganizou-se o tráfico negreiro. Daí a opção pela escravidão do indígena, que passou a ser uma mercadoria altamente valorizada.

Os conflitos entre os missionários indígenas e bandeirantes foram violentos. Outra prática dos vicentinos era estimular a guerra entre tribos indígenas inimigas. Os perdedores no conflito eram escravizados.

Com a restauração do trono português e a reconquista de domínios portugueses na África  que estavam em mãos holandesas, reinicia-se o abastecimento da mão-de-obra negra nas lavouras brasileiras. Além disso, a crise da produção açucareira portuguesa, em decorrência da produção açucareira das Antilhas flamengas, levou à queda do preço do escravo índio. Todos esses fatores, aliados à escassez do ouro de lavagem, levaram os bandeirantes a se desinteressar pela caça ao índio, trocando-a pelo sertanismo de contrato, que ocorreu desde fins do século XVI até o século XVIII.

Nessa atividade, os bandeirantes eram contratados por senhores de engenho, proprietários, pecuaristas e governadores, para reprimirem as tribos indígenas resistentes à escravização e os negros foragidos das fazendas, os quais se organizavam em quilombos – aldeias negras de ex-escravos que se rebelavam contra a escravidão.

As tribos indígenas lutavam contra a expansão das plantações de açúcar e da pecuária em suas terras nativas. Em relação aos quilombos, os conflitos entre negros e brancos podem ser vistos como lutas da classe escravista pela libertação. Os conflitos foram violentos, o que provocou o extermínio de sociedades tribais indígenas e comunidades quilombolas.

Bandeirantes: caça aos índios e busca do ouro

Vicentinos: pobreza e produção de subsistência 

A capitania de São Vicente prosperou pouco desde sua fundação em 1532. Um ano mais tarde (1533) ali foi erguido o primeiro engenho do Brasil (o Engenho do Bom Governador). A própria Coroa portuguesa financiou a instalação da produção açucareira na região. O objetivo do Estado português era a descoberta de caminhos que levassem às minas espanholas da Bolívia e do Peru pelos afluentes do rio prata.

No entanto, o ouro não foi encontrado e a produção açucareira não progrediu dada a concorrência com a produção açucareira de Pernambuco e Bahia. Três motivos fundamentais impediram o progresso de São Vicente. Primeiro, a longa distância da capitania vicentina até os mercados europeus. Em segundo lugar, a terra era imprópria para a agricultura. Além disso, São Vicente era alvo constante de pirataria marítima.

A pobreza vicentina forçou seus habitantes a novos empreendimentos. Assim, surgiram as bandeiras, isto é, grupos de homens organizados em expedições militares particulares, com objetivos de penetração pelos sertões à procura de metais preciosos, índios e negros foragidos dos engenhos. Os seguidores das bandeiras chamavam-se bandeirantes.

As “drogas” do Amazonas

A integração da região Amazônica à colonização portuguesa no Brasil realizou-se durante a União Ibérica (anexação de Portugal à Espanha, de 1580 a 1640), período em que o Tratado de Tordesilhas era letra morta. Franceses, ingleses e holandeses subiam o rio Amazonas em direção às minas de ouro peruanas. Logo após a restauração portuguesa (separação de Portugal em relação à Espanha), os lusitanos organizaram expedições para dominar o Amazonas – instalando feitorias ao longo do rio.

Dois objetivos completavam-se na penetração amazônica pelos portugueses: militar e econômico. Defendendo o rio Amazonas, tropas sulistas expulsaram franceses, holandeses e ingleses, ao mesmo tempo que exploravam as drogas do sertão – cravo , canela, castanha-do-pará, fumo, salsaparrilha (tempero), essências de perfume, urucum (planta utilizada pelos indígenas para pintar o corpo e também para tempero) e guaraná -, vendidas a altos preços nos mercados europeus.

Com a ocupação da Amazônia, ultrapassava-se a “linha” norte de Tordesilhas, os bandeirantes iriam anulá-la ao sul.